Delivery ou takeaway: as contas honestas para o seu restaurante
Um estafeta (ou entregador, no Brasil) à espera junto ao passe, um saco de papel agrafado e mais uma notificação no tablet de pedidos: o delivery faz hoje parte da paisagem da restauração, de Lisboa a São Paulo. Mas entre a faturação que a aplicação mostra e o que fica realmente na caixa, a diferença ainda surpreende muitos restauradores.
Este artigo põe as contas na mesa: o que as plataformas cobram de verdade em cada país (com o que elas próprias publicam, e assinalando quando não publicam nada), o que sobra depois da comissão, das embalagens e dos erros, em que casos o delivery faz sentido, e por que razão o takeaway (a venda para levar, ou retirada, como se diz no Brasil) em canal direto joga noutra categoria de rentabilidade. Vai ver que a lógica é exatamente a mesma das suas mesas: a do canal direto, a que defendemos na ViteUneTable para as suas reservas diretas, sem intermediários.
Em resumo:
- em Portugal, a Uber Eats publica as suas tarifas: 30 % por pedido entregue pela rede da plataforma, 20 % com entrega própria e 15 % nos pedidos de levantamento no restaurante;
- a Glovo e a Bolt Food não publicam nenhuma tabela de comissões em Portugal: as condições negoceiam-se contrato a contrato;
- no Brasil, o iFood domina o mercado e publica os seus planos: 12 % de comissão com entrega própria ou 23 % com entregadores da plataforma, mais 3,2 % sobre pagamentos na app e uma mensalidade;
- depois de comissão, embalagem, erros e promoções, a margem de um pedido entregue encolhe, sobretudo nos pedidos pequenos;
- o takeaway em canal direto elimina a comissão, mas exige um canal de pedidos próprio: o seu site, o seu telefone, o seu perfil do Google e, sobretudo no Brasil, o WhatsApp.
O que as plataformas cobram, país a país
Primeira regra antes de qualquer decisão: ler o que as plataformas dizem elas próprias, em vez dos números que circulam de boca em boca. E quando não dizem nada, saber que o número exato só vai aparecer no seu contrato.
Em Portugal: Uber Eats, Glovo e Bolt Food
Em Portugal, a Uber Eats é a única das três grandes que publica uma tabela de preços na sua página oficial de tarifas para restaurantes (consultada em agosto de 2026): 30 % por pedido quando a entrega é feita pela rede de estafetas da plataforma, 20 % se o restaurante entrega com pessoal próprio e 15 % nos pedidos de levantamento no local, aos quais acresce uma subscrição semanal de 3,49 €. Estas percentagens aplicam-se ao valor do pedido, não à sua margem, e a comissão leva ainda o IVA respetivo.
A Glovo, pelo contrário, não mostra nenhuma percentagem no seu portal para parceiros em Portugal: as condições são comunicadas na adesão. O mesmo acontece com a Bolt Food, que remete os restaurantes para o seu portal de parceiro sem publicar qualquer grelha de comissões. Na prática, o valor depende do contrato, da zona e do volume, e só o descobre ao assinar.
No Brasil: o domínio do iFood
No Brasil, o mercado tem um nome incontornável: o iFood, que reivindica na sua página institucional 500 mil estabelecimentos parceiros e 180 milhões de pedidos por mês em mais de 1.500 cidades. Ao contrário das plataformas europeias, o iFood publica os seus planos na página oficial para parceiros (consultada em agosto de 2026):
- Plano Básico: 12 % de comissão por pedido, com a entrega feita pelo próprio restaurante, mais 3,2 % sobre os pedidos pagos através da app e uma mensalidade de R$ 110 (isenta no primeiro mês e abaixo de R$ 1.800 de faturação mensal);
- Plano Entrega: 23 % de comissão por pedido, com entregadores parceiros do iFood, mais os mesmos 3,2 % de taxa de pagamento e uma mensalidade de R$ 150 nas mesmas condições.
Somando comissão e taxa de pagamento, um pedido entregue pela rede do iFood custa na prática cerca de 26 % do valor, antes da mensalidade e de qualquer campanha de visibilidade dentro da app. Menos do que os 30 % europeus, mas com a mesma lógica: a plataforma cobra sobre o pedido, não sobre a sua margem.
No Brasil, o canal que cresce fora das apps: o WhatsApp
Um dado muda por completo a discussão no mercado brasileiro. Segundo uma pesquisa da Abrasel junto de 2.176 estabelecimentos, 63 % dos bares e restaurantes com delivery usam o WhatsApp como canal de vendas, e o pedido por WhatsApp já representa 26 % da faturação do delivery, contra 54 % dos marketplaces, 12 % de app ou site próprio e 8 % do telefone.
Por outras palavras: um quarto do delivery brasileiro já passa por um canal direto, sem comissão por pedido. É a prova em grande escala de que o canal próprio não é uma utopia, é uma prática instalada. E a mesma lógica funciona para as mesas: explicámos como organizar esse fluxo no nosso guia sobre reservas pelo WhatsApp no restaurante.
O que sobra de um pedido entregue
A comissão é só a primeira linha do cálculo. Para conhecer a rentabilidade real de um pedido entregue, é preciso empilhar todos os custos próprios deste canal:
- a comissão da plataforma: entre um quarto e um terço do pedido quando a entrega é feita pela rede da plataforma, como acabámos de ver, mais os impostos sobre essa comissão;
- a embalagem: recipientes, sacos, talheres, contentores térmicos. Um custo por pedido que não existe na sala;
- os erros e as reclamações: pedido incompleto, prato frio, morada errada. Conforme o contrato, o reembolso corre muitas vezes por sua conta, por vezes sem possibilidade real de contestar;
- as promoções: as campanhas de visibilidade dentro da app são frequentemente cofinanciadas pelo restaurante, o que corta ainda mais o valor do pedido;
- o tempo de cozinha: um pedido entregue ocupa a sua cozinha exatamente como uma mesa, mas sem venda de bebidas, que é uma das rubricas com mais margem da restauração.

Faça as contas com a sua própria carta. Pegue num pedido de 20 € (ou R$ 80): com 25 a 30 % de comissão saem 5 a 6 € antes de falar de matéria-prima. Subtraia o custo dos ingredientes (digamos 30 %, mais 6 €), uma embalagem completa (0,50 a 1 €) e a parte proporcional das promoções. O que sobra tem de pagar pessoal, renda e fornecimentos. Para muitos estabelecimentos, o pedido entregue fica perto do ponto de equilíbrio, ou mesmo em prejuízo nos pedidos pequenos. Se ainda não domina o seu custo de matéria-prima e os seus rácios, comece pelo nosso guia sobre a rentabilidade de um restaurante: sem esses números, é impossível decidir com serenidade.
Quando o delivery faz sentido (e quando destrói a margem)
Sejamos honestos: o delivery não é uma fraude, é um canal com regras económicas duras. Pode ser pertinente em situações concretas.
Os casos em que o delivery se defende
- O volume marginal: a sua cozinha trabalha abaixo da capacidade em certos períodos (início de semana, serviço de almoço). Os pedidos entregues preenchem horas mortas sem custo fixo adicional: mesmo uma margem pequena é uma contribuição positiva.
- A zona densa: no centro de uma grande cidade, a procura de delivery já existe e a plataforma traz-lhe clientes que nunca teria alcançado. É um canal de captação, a tratar como um orçamento de marketing cujo retorno se mede.
- A oferta que viaja bem: pizas, hambúrgueres, bowls, sushi, marmitas. Pratos pensados para aguentar 20 minutos de trajeto, com custo de matéria-prima controlado e embalagem simples.
Os casos em que destrói a margem
- Os pratos que viajam mal: fritos que amolecem, empratamentos cuidados, cozeduras ao minuto. O cliente descontente avalia na app, mas a crítica negativa leva o seu nome, não o da plataforma.
- Os pedidos pequenos: num pedido de 12 € ou R$ 40, a comissão e a embalagem comem quase toda a margem. Sem pedido mínimo ou sem uma carta pensada para o delivery, está a trabalhar para a plataforma.
- A canibalização: se os pedidos entregues substituem clientes que teriam vindo à sala (onde teriam pedido sobremesa e uma garrafa), está a trocar uma mesa com margem por um pedido com comissão. A faturação parece estável, a margem evapora-se.
- A dependência: quanto mais o delivery pesa na sua atividade, mais poder tem a plataforma na relação. No dia em que mudam a percentagem, o algoritmo de visibilidade ou as condições, já não tem margem de negociação.
Takeaway em canal direto: zero comissão, mas um canal a construir
O takeaway organizado (o cliente pede com antecedência e passa a levantar, ou retirar, à hora combinada) muda por completo o contraste económico, e no bom sentido:
- zero comissão se o pedido entra pelos seus próprios canais;
- sem estafeta à espera nem prato a arrefecer numa mota: o cliente levanta ao balcão à hora prevista;
- um fluxo mais suave: os pedidos antecipados preparam-se entre picos de serviço, em vez de caírem em pleno aperto;
- um cliente que é seu: o contacto, o histórico e a fidelidade pertencem-lhe a si, em vez de alimentarem a base de dados de uma plataforma.

A contrapartida é real e há que dizê-la: sem plataforma, ninguém lhe traz os pedidos. Precisa de um canal direto, e na prática bastam três:
- o seu site, mesmo simples, com a ementa (ou cardápio, no Brasil) atualizada e uma forma clara de pedir ou reservar;
- o telefone e o WhatsApp: em Portugal, o telefone continua a ser o reflexo de grande parte da clientela; no Brasil, o WhatsApp é o canal direto por excelência, como mostram os números da Abrasel citados acima;
- o seu perfil de empresa no Google e as redes sociais, que convertem a sua visibilidade local em pedidos diretos.
Uma nuance: passar por uma plataforma para o levantamento no local também é possível e custa menos do que a entrega (15 % publicados pela Uber Eats em Portugal para pedidos de levantamento). É um meio-termo: menos comissão do que na entrega, mas continua a existir um intermediário entre si e o seu cliente.
A embalagem: o custo que decide o takeaway
No takeaway como no delivery, a embalagem merece uma linha própria nas contas. Três regras práticas:
- calcule o custo completo por pedido (recipiente, saco, talheres, guardanapos, molhos): entre 0,50 e 1 € por pedido é comum, e num pedido de 12 € isso representa 4 a 8 % do valor;
- adapte a embalagem ao prato, não o contrário: um recipiente com ventilação para os fritos, compartimentos para os molhos, e retire da carta de takeaway o que não sobrevive ao trajeto;
- faça da embalagem um suporte de marketing: um cartão com o seu número, o seu WhatsApp ou o QR code do seu site em cada saco transforma um cliente de plataforma num cliente direto na próxima encomenda.
A mesma lógica vale para as suas reservas
Releia tudo o que ficou para trás substituindo "pedido entregue" por "mesa reservada": o raciocínio é idêntico.
As plataformas de reserva com comissão funcionam com o mesmo modelo das plataformas de delivery: trazem-lhe visibilidade e clientes, e cobram por cada cliente que passa por elas. A resposta racional também é a mesma: usar as plataformas para o que sabem fazer (captar uma procura que não teria tido) e construir em paralelo um canal direto que lhe pertence, onde cada reserva chega com 0 % de comissão.
É exatamente esse o posicionamento da ViteUneTable, e assumimo-lo: o nosso software de reservas para restaurantes existe para que as suas mesas sejam reservadas em direto, a partir do seu site, do seu perfil do Google ou do seu telefone. A versão gratuita é ilimitada, sem comissões e sem fidelização; os packs pagos (Pack Standard a 29 € sem IVA por mês, Standard + Anti No-Show a 49 €) acrescentam os lembretes por e-mail e a pré-autorização de cartão quando o seu volume o justifica. E sejamos honestos até ao fim: a ViteUneTable não gere encomendas de delivery nem takeaway, é uma ferramenta de reservas. Mas a lógica do canal direto vale para as duas coisas.
Por onde começar, na prática
- Meça a sua situação atual: peso do delivery na faturação, margem real por pedido entregue (descontando comissão, embalagem e erros), proporção de pedidos pequenos.
- Saneie o delivery se o mantiver: pedido mínimo, carta reduzida aos pratos que viajam bem, preços ajustados ao canal, participação limitada nas promoções.
- Abra um canal direto: uma página de pedidos ou um formulário simples no seu site, um número de telefone e um WhatsApp bem visíveis, um link no seu perfil do Google e nas redes.
- Migre pouco a pouco os seus habituais: um cartão em cada saco entregue ou levantado, um pequeno desconto de boas-vindas no primeiro pedido direto, e o lembrete sistemático de que em direto não há taxas de serviço nem intermediários.
- Aplique a mesma lógica às suas reservas: mesas em direto com o seu próprio sistema, plataformas como complemento para a procura incremental.
O fio condutor não muda: todo o canal intermediado se paga, todo o canal direto se constrói. Os restaurantes a quem as coisas correm melhor não são os que recusam todas as plataformas nem os que lhes confiam tudo: são os que sabem exatamente quanto lhes custa cada canal e guardam a relação com o cliente em casa.
Perguntas frequentes
Que comissão cobra a Uber Eats a um restaurante em Portugal?
Segundo a sua página oficial de tarifas (consultada em agosto de 2026), a Uber Eats aplica em Portugal 30 % por pedido entregue pela rede de estafetas da plataforma, 20 % se o restaurante entrega com pessoal próprio e 15 % nos pedidos de levantamento no local, mais uma subscrição de 3,49 € por semana e o IVA sobre a comissão. A percentagem exata do seu estabelecimento consta do seu contrato.
Quanto cobra o iFood a um restaurante no Brasil?
O iFood publica os planos na página oficial para parceiros (consultada em agosto de 2026): Plano Básico com 12 % de comissão e entrega feita pelo restaurante, ou Plano Entrega com 23 % de comissão e entregadores da plataforma. Em ambos os casos acrescem 3,2 % sobre os pedidos pagos na app e uma mensalidade de R$ 110 ou R$ 150, isenta no primeiro mês e abaixo de R$ 1.800 de faturação mensal.
E a Glovo ou a Bolt Food, quanto cobram?
Nenhuma das duas publica uma tabela de comissões em Portugal: as condições são comunicadas na adesão e dependem do contrato, da zona e do volume. Antes de assinar, peça por escrito a percentagem por tipo de pedido, os custos extra e as condições de participação nas promoções.
O takeaway é mesmo rentável para um restaurante?
Se os pedidos entram pelos seus próprios canais (site, telefone, WhatsApp, perfil do Google), o takeaway não suporta nenhuma comissão: sobram apenas a embalagem e o tempo de preparação. É, de longe, o canal de venda fora de sala mais rentável. O seu limite é o volume: sem uma plataforma a trazer pedidos, é a sua visibilidade local que faz o número.
Vale a pena vender pelo WhatsApp no Brasil?
Os números dizem que sim: segundo a Abrasel, 63 % dos bares e restaurantes brasileiros com delivery usam o WhatsApp como canal de vendas, e o canal já representa 26 % da faturação do delivery no setor. É um canal direto, sem comissão por pedido, que funciona tanto para encomendas como para reservas de mesa.
Devo sair das plataformas de delivery de um dia para o outro?
Raramente. Se o delivery preenche as suas horas mortas ou lhe traz clientes incrementais, mantém um papel, desde que conheça a margem real. A estratégia mais sólida é manter as plataformas como complemento enquanto desenvolve um canal direto (takeaway, WhatsApp, reservas diretas) que cresce com cada cliente convertido.
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